maio 2009


Este bimestre estamos estudando em Língua Inglesa os nomes de alguns alimentos. Na primeira aula do assunto, apresentei o tema, perguntei sobre a comida preferida de cada um, o que era saudável e o que não era. Depois, fomos para o livro, onde havia um diálogo com a família indo ao supermercado.

A aula seguinte foi diferente. Achei que, ao trabalhar de modo mais “concreto”, talvez o conteúdo fosse melhor compreendido. A ideia inicial era que os alunos preparassem uma receita e, em seguida, fizéssemos um piquenique. Pedi para que cada um trouxesse um alimento para a aula seguinte, de pereferência, alimentos saudáveis.

Ontem foi o grande dia. Levei várias frutas para uma salada de frutas; qiejo, cenoura e alface para um sanduiche; bolo; biscoitos e suco. Os aluno trouxeram frutas, pipoca, vitamina (feita por eles mesmos), bolachas.

A ideia da receita foi por água abaixo quando me dei conta de que eles não podem manusear facas. Ainda assim, eles foram extremamente cooperativos, ajudando em tudo o que era possível.

As garotas que trouxeram a vitamina não só a prepararam como também foram procurar os nomes dos ingredientes em inglês! Isso não é lindo? O momento do intervalo, geralmente inegociável, foi adiado para depois do piquenique.

Estendemos duas enormes toalhas na grama, colocamos todas as comidas. Não só os alunos sentaram-se e entraram na brincadeira, mas também a diretora, o coordenador, a professora de História e a secretária. Todo mundo integrado e feliz.

Mostrei a eles como se dizia o nome de cada alimento e estabelecemos a brincadeira de que só de comeria aquilo que falássemos em inglês. Todos, inclusive os adlutos, fizeram seus “pedidos” em Inglês! Isto não é gratificante?

Ao voltarmos para a sala, ainda faltavam vinte minutos para a saída. Como é uma turma muito agitada, imaginei que seria difícil contê-los. Eles me supreenderam: acalmaram-se e, ainda, queriam começar ali mesmo a lição pedida para casa – elaborar um cardápio todo em inglês. Ao invés de distraídos e desmotivados, estavam envolvidos e discutiam entre si como o fariam, procurando palavras e modos de fazer um trabalho bonito.

As fotos serão postadas posteriormente porque estão na escola, mas, ainda assim, não é um momento muito legal?

Como seria a escola ideal?

Como o conhecimento seria transmitido?

Que tipos de conhecimento seriam passados?

Como o tempo (as horas) seria estruturado?

A estrutura física seria a mesma da escola atual?

Como você acha que teria gostado mais da escola na infância?

Como os alunos sentiriam-se mais motivados a buscar o conhecimento?

Gostaria que todos escrevessem comentários sobre a escola ideal, quem sabe, assim, lentamente, não poderemos, juntos, construir uma escola melhor e mais íntegra em seu propósito?

Sonhem, imaginem e, por favor, escrevam!

Na semana passada, escrevi para todos pais cujos filhos não estavam participando da aula. Os “bilhetes” não eram broncas. Neles, eu apenas dizia que os filhos precisavam participar mais das aulas, fazer as tarefas de casa, etc.

Hoje, os cadernos vieram assinados. A maioria só tinha assinatura dos responsáveis, mas um em particular me chamou a atenção.

O garoto é uma graça. Um menininho fofo e inteligente que não consegue ficar na carteira. Ele é esperto, sabe ler e escrever. Não é o caso daqueles gênios que se desinteressam porque o conteúdo é fácil. Ele simplesmente se desinteressa e resolve jogar papéis nos outros, falar besteiras quando estamos respondendo oralmente e não fazer nada quando estamos trabalhando com livro ou caderno. O fofo nunca me desrespeitou nem me ofendeu, mas não dá conta das aulas. Os outros professores também reclamam.

Quando entrei na sala, ele me trouxe o caderno e lá estava uma folha inteira escrita pela mãe. Na primeira página, ela dizia que já o tinha levado a médicos, psicólogos, pedagogos e não descobriram nenhum problema cognitivo. Também dizia que desde pequeno todas as professoras reclamavam dele. No fim da página, ela diz que precisa da minha ajuda, porque não sabe o que fazer. Ao virar a folha e ler a segunda página, me surpreendi. Ela pedia para que eu deixasse de me preocupar com ele e me dedicasse ao resto da turma, porque até ela já tinha desistido. A mãe afirmava que não admitiria problemas dele com falta de respeito, mas quanto ao interesse não havia mais nada o que fazer.

Chocada, perguntei se ele havia lido o bilhete e ele me diz que sim. O rosto dele estava péssimo. Imagina… até sua mãe desistiu de você, quem não estaria?

Durante a aula, ele foi o mesmo. Mesmo chateado, ele ainda não tem a capacidade de enfrentar a situação e dizer “vou mostrar a todos que sou capaz, provar que estão errados a meu respeito”. O que fazer? Eu disse a ele que não desitiria dele e fiz vários elogios plausíveis a seu respeito, pontuando as dificuldades, mas não enfatizando-as.

Não quero julgar a mãe. Não sei como é a vida dela, não sei que tipo de pessoa é, não a conheço. Só tenho certeza de que, ao chegar neste ponto, alguma coisa está muito errada e as soluções precisariam aparecer. Entretanto, como buscar um caminho que ajude esta criança e como dizer a esta mãe que ela não poderia desistir?

Se aumentarmos o foco, percebemos que talvez ela não seja a única que tenha desistido do próprio filho. O professor lida com várias crianças que a mãe desistiu. Como, então, manter a motivação e a crença? Acho que falta este elo entre pais e escola, o qual poderia fazer diferença antes que todos desistissem e a sala se tornasse o reflexo do abandono geral.

Sofia Amorim

Carta enviada à Folha de São Paulo em resposta ao editorial de 17 de maio de 2009.

Gostaria de agradecer à Folha, como imagino que outras centenas de professores já devem ter feito, pelo editorial de domingo, 17 de maio, “Socorro ao professor”.

Escrevo agradecendo não somente pela preocupação em abordar a questão da violência na escola, mas, principalmente, pelo foco dado à figura do professor. A violência é, sim, uma questão importante, entretanto, ela é somente resultado de diversos outros fatores que não são tratados com dignidade dentro da educação.

A figura do professor nunca foi muito valorizada. Apesar do ideal de educação priorizado pelos gregos, desde aquela época, ser professor não era uma profissão de prestígio: eram os desafortunados que se habilitavam às lições. Os pedagogos, com sentido distinto do atual, eram os estrangeiros escravizados. Não se pode culpar necessariamente o mundo atual por continuar desmerecendo tal profissão.

Mesmo sendo isto um fato, devo dizer, como professora que sou, como é desgastante, a cada folheada nos jornais e nas revistas, encontrar-me como única culpada pelos problemas educacionais. Não há governo, não há pais, não há mídia. A sociedade em geral não consegue assumir sua responsabilidade em relação à educação. O professor, “mal preparado”, “mal pago”, de “má vontade”, é o único responsável pelos índices de analfabetismo nos últimos anos do Ensino Fundamental. É o professor o responsável pela baixas notas nas avaliações do governo. Porque é somente o professor que está dentro da sala. Será?

O meu aluno ali sentado, de certa maneira, traz em si sua família, sua comunidade, sua cultura regional, a história do lugar em que vive. Assim como o professor que o acompanha. Toda a sociedade está, de algum modo, dentro da sala de aula, independente da classe social, se a escola é pública ou particular. Como, então, jogar a responsabilidade toda para alguns poucos professores de cada criança?

Quando a Folha diz “O aumento da violência juvenil é um problema das sociedades contemporâneas que não afeta apenas a escola. Agrava-se conforme pais de todos os estratos se omitem e transferem a responsabilidade primeira pela socialização de crianças e jovens ao educador”, ela confirma justamente aquilo em que acredito. Eu, como educadora, tenho o dever, sim, de priorizar meu aluno. Mas não posso, como ser humano que sou, assumir a responsabilidade por todos os problemas educacionais.

Ao terminar de ler o texto, pude sentir, finalmente, que alguém dividiu comigo este peso.

Obrigada,

Sofia Amorim


Texto escrito em Novembro de 2006, sobre uma experiência em sala de aula e o site de publicações Overmundo.

Muito se discute sobre educação. Diversos teóricos a estudam, pesquisam a respeito de sua importância, do seu papel na sociedade, em como trabalhar as diversas disciplinas, etc. etc. etc. Entretanto, entre a prática de sala de aula e as teorias parece haver um enorme abismo. Não que as teorias não estejam “certas”, mas o cotidiano, a rotina tendem a massacrar a maior parte do que se estuda.

Trabalho em uma escola municipal de periferia de Ribeirão Preto. O bairro não é tão pobre, apesar de enfrentar algumas dificuldades. A escola é muito boa, tem um corpo docente incrível e a direção consegue deixar todos incentivados a fazer um bom trabalho. Lógico que isso é exceção – nem todas as escolas públicas podem contar com um ambiente legal de trabalho. Sou professora de Língua Portuguesa em uma 5ª, três 7ª e uma 8ª séries do Fundamental.

Uma dessas salas, a 7ª C, é daquelas que os professores realmente pensam se querem continuar no magistério. Alguns alunos são muito dedicados, amam estudar e questionar tudo. Outros, em compensação, não querem (aparentemente) saber de nada – seus objetivos parecem ser irritar o quanto possível todos os professores. Várias vezes a direção foi chamada para conversar com eles, pois os professores não sabiam mais o que fazer. Até aí, tudo bem… nada de muito diferente do que acontece na maior parte das escolas atuais.

Algumas semanas atrás, resolvi fazer um trabalho diferente com eles – um trabalho de produção textual. A atividade consistia em três partes: na primeira, eles escutaram trechos de diversas músicas, das mais comuns às mais bizarras, e fizeram um desenho de seus sentimentos para cada uma delas; na segunda, os alunos pensaram em tudo o que sentiram ao escutar aquelas músicas, refletiram sobre seus desenhos e, então, começaram a escrever tudo o que viesse à mente – sem pontuação, sem orações completas, sem nada – apenas escrever o pensamento; na última parte, eles circularam várias palavras do texto e, com elas, montaram um poema – cada um do seu jeito, com seu estilo, conforme suas vontades e sentimentos.

Como já tinha trabalhado esta atividade em outras salas, imaginei que alguns, como de costume, iriam passear pela sala, não fazer a atividade e coisas do tipo. Mas, não. O “milagre” aconteceu. Todos eles se sentaram e se concentraram na atividade. Não havia conversa na sala. Os quietos, quietos, os bagunceiros, quietos também. Havia um silêncio envolvente, um clima contagiante de seriedade no que faziam. Eu desacreditava… Tirei fotos, porque sabia que os colegas talvez não acreditassem. Quando terminaram a segunda parte, expliquei o passo seguinte e o milagre foi se multiplicando: gente que nunca tinha copiado uma linha sequer em todos esses meses me trazendo poemas e poemas. A sala se encheu de poesia. E de poesia também os alunos se preencheram, quem terminava ajudava os que tinham dificuldade, os que faziam bagunça pediam ajuda para os quietos.

Quando li as poesias, chorei (talvez pareça exagero). Chorei porque eu já tinha perdido aquela empolgação de quando começamos a lecionar. Chorei porque vi que, sim, era possível acontecer o “milagre”. Chorei porque, sim, todos são capazes e podem ir além…

Minha relação com esta sala mudou completamente. Não, eles não deixaram de ser quem eram. Mas meu olhar mudou. A minha empolgação mudou. E o “milagre”, que eu acreditava ter acontecido neles, aconteceu em mim. As aulas agora fluem com muito mais energia, com muito mais vontade. Talvez, por eu ter mais vontade, eles me escutam mais, participam mais e os milagres continuam a acontecer…

Hoje, eles apresentaram trabalhos sobre países do oriente. Dentre as três 7ª séries, a deles foi a mais criativa, foi a que apresentou os melhores trabalhos. A grande maioria se dedicou muito para que apresentassem o melhor de si. Isso não é maravilhoso?

Alguns desses alunos participam do Overmundo e vivem publicando seus textos por aqui. O Carlos publicou o texto q fez em sala de aula – chama-se Sonho Inesquecível. O José Bruno está para publicar o dele. Pedi a eles que fizessem um texto coletivo sobre a experiência de hoje para publicarem aqui também.

Não sei dizer exatamente o que tudo isso significa. Sei falar que nossa postura determina muito da postura do outro. Sei também dizer que todos nós somos educadores, inclusive o Overmundo e seus colaboradores, pois os alunos têm se sentido muito incentivados a escrever mais e melhor com a participação por aqui. Obrigada a todos por participarem da minha sala de aula e por fazerem com que as colaborações de vocês colaborem também em minhas aulas.

Como fazer para que os alunos vejam sentido no conteúdo trabalhado em sala de aula sem que se perca a qualidade?
Motivação e qualidade de conteúdo nem sempre parecem andar juntos. A questão parece boba para quem não está em sala de aula. Eu não quero alunos quietos, quero alunos motivados. Para isso, devo fazer com que eles entendam o que ensino. Mas como?

Próxima Página »