Carta enviada à Folha de São Paulo em resposta ao editorial de 17 de maio de 2009.

Gostaria de agradecer à Folha, como imagino que outras centenas de professores já devem ter feito, pelo editorial de domingo, 17 de maio, “Socorro ao professor”.

Escrevo agradecendo não somente pela preocupação em abordar a questão da violência na escola, mas, principalmente, pelo foco dado à figura do professor. A violência é, sim, uma questão importante, entretanto, ela é somente resultado de diversos outros fatores que não são tratados com dignidade dentro da educação.

A figura do professor nunca foi muito valorizada. Apesar do ideal de educação priorizado pelos gregos, desde aquela época, ser professor não era uma profissão de prestígio: eram os desafortunados que se habilitavam às lições. Os pedagogos, com sentido distinto do atual, eram os estrangeiros escravizados. Não se pode culpar necessariamente o mundo atual por continuar desmerecendo tal profissão.

Mesmo sendo isto um fato, devo dizer, como professora que sou, como é desgastante, a cada folheada nos jornais e nas revistas, encontrar-me como única culpada pelos problemas educacionais. Não há governo, não há pais, não há mídia. A sociedade em geral não consegue assumir sua responsabilidade em relação à educação. O professor, “mal preparado”, “mal pago”, de “má vontade”, é o único responsável pelos índices de analfabetismo nos últimos anos do Ensino Fundamental. É o professor o responsável pela baixas notas nas avaliações do governo. Porque é somente o professor que está dentro da sala. Será?

O meu aluno ali sentado, de certa maneira, traz em si sua família, sua comunidade, sua cultura regional, a história do lugar em que vive. Assim como o professor que o acompanha. Toda a sociedade está, de algum modo, dentro da sala de aula, independente da classe social, se a escola é pública ou particular. Como, então, jogar a responsabilidade toda para alguns poucos professores de cada criança?

Quando a Folha diz “O aumento da violência juvenil é um problema das sociedades contemporâneas que não afeta apenas a escola. Agrava-se conforme pais de todos os estratos se omitem e transferem a responsabilidade primeira pela socialização de crianças e jovens ao educador”, ela confirma justamente aquilo em que acredito. Eu, como educadora, tenho o dever, sim, de priorizar meu aluno. Mas não posso, como ser humano que sou, assumir a responsabilidade por todos os problemas educacionais.

Ao terminar de ler o texto, pude sentir, finalmente, que alguém dividiu comigo este peso.

Obrigada,

Sofia Amorim