Texto escrito em Novembro de 2006, sobre uma experiência em sala de aula e o site de publicações Overmundo.

Muito se discute sobre educação. Diversos teóricos a estudam, pesquisam a respeito de sua importância, do seu papel na sociedade, em como trabalhar as diversas disciplinas, etc. etc. etc. Entretanto, entre a prática de sala de aula e as teorias parece haver um enorme abismo. Não que as teorias não estejam “certas”, mas o cotidiano, a rotina tendem a massacrar a maior parte do que se estuda.

Trabalho em uma escola municipal de periferia de Ribeirão Preto. O bairro não é tão pobre, apesar de enfrentar algumas dificuldades. A escola é muito boa, tem um corpo docente incrível e a direção consegue deixar todos incentivados a fazer um bom trabalho. Lógico que isso é exceção – nem todas as escolas públicas podem contar com um ambiente legal de trabalho. Sou professora de Língua Portuguesa em uma 5ª, três 7ª e uma 8ª séries do Fundamental.

Uma dessas salas, a 7ª C, é daquelas que os professores realmente pensam se querem continuar no magistério. Alguns alunos são muito dedicados, amam estudar e questionar tudo. Outros, em compensação, não querem (aparentemente) saber de nada – seus objetivos parecem ser irritar o quanto possível todos os professores. Várias vezes a direção foi chamada para conversar com eles, pois os professores não sabiam mais o que fazer. Até aí, tudo bem… nada de muito diferente do que acontece na maior parte das escolas atuais.

Algumas semanas atrás, resolvi fazer um trabalho diferente com eles – um trabalho de produção textual. A atividade consistia em três partes: na primeira, eles escutaram trechos de diversas músicas, das mais comuns às mais bizarras, e fizeram um desenho de seus sentimentos para cada uma delas; na segunda, os alunos pensaram em tudo o que sentiram ao escutar aquelas músicas, refletiram sobre seus desenhos e, então, começaram a escrever tudo o que viesse à mente – sem pontuação, sem orações completas, sem nada – apenas escrever o pensamento; na última parte, eles circularam várias palavras do texto e, com elas, montaram um poema – cada um do seu jeito, com seu estilo, conforme suas vontades e sentimentos.

Como já tinha trabalhado esta atividade em outras salas, imaginei que alguns, como de costume, iriam passear pela sala, não fazer a atividade e coisas do tipo. Mas, não. O “milagre” aconteceu. Todos eles se sentaram e se concentraram na atividade. Não havia conversa na sala. Os quietos, quietos, os bagunceiros, quietos também. Havia um silêncio envolvente, um clima contagiante de seriedade no que faziam. Eu desacreditava… Tirei fotos, porque sabia que os colegas talvez não acreditassem. Quando terminaram a segunda parte, expliquei o passo seguinte e o milagre foi se multiplicando: gente que nunca tinha copiado uma linha sequer em todos esses meses me trazendo poemas e poemas. A sala se encheu de poesia. E de poesia também os alunos se preencheram, quem terminava ajudava os que tinham dificuldade, os que faziam bagunça pediam ajuda para os quietos.

Quando li as poesias, chorei (talvez pareça exagero). Chorei porque eu já tinha perdido aquela empolgação de quando começamos a lecionar. Chorei porque vi que, sim, era possível acontecer o “milagre”. Chorei porque, sim, todos são capazes e podem ir além…

Minha relação com esta sala mudou completamente. Não, eles não deixaram de ser quem eram. Mas meu olhar mudou. A minha empolgação mudou. E o “milagre”, que eu acreditava ter acontecido neles, aconteceu em mim. As aulas agora fluem com muito mais energia, com muito mais vontade. Talvez, por eu ter mais vontade, eles me escutam mais, participam mais e os milagres continuam a acontecer…

Hoje, eles apresentaram trabalhos sobre países do oriente. Dentre as três 7ª séries, a deles foi a mais criativa, foi a que apresentou os melhores trabalhos. A grande maioria se dedicou muito para que apresentassem o melhor de si. Isso não é maravilhoso?

Alguns desses alunos participam do Overmundo e vivem publicando seus textos por aqui. O Carlos publicou o texto q fez em sala de aula – chama-se Sonho Inesquecível. O José Bruno está para publicar o dele. Pedi a eles que fizessem um texto coletivo sobre a experiência de hoje para publicarem aqui também.

Não sei dizer exatamente o que tudo isso significa. Sei falar que nossa postura determina muito da postura do outro. Sei também dizer que todos nós somos educadores, inclusive o Overmundo e seus colaboradores, pois os alunos têm se sentido muito incentivados a escrever mais e melhor com a participação por aqui. Obrigada a todos por participarem da minha sala de aula e por fazerem com que as colaborações de vocês colaborem também em minhas aulas.