Tenho uma sala de 5a série que é muito agitada. Sempre temos que pedir para que falem menos, para que se sentem, para prestar atenção e etc. Ultimamente, eles andam muito violentos. Sempre estão brincando de lutinha e, obviamente, acabam brigando de verdade.

É uma sala bem heterogênea. Temos três inclusões diferentes. Um tem problemas psicológicos mentais graves (do tipo que não bate bem mesmo, louco), ele é completamente analfabeto e, dizem, nunca vai conseguir aprender (eu discordo, mas não sei como alfabetizá-lo). Outra tem uma leve dificuldade cognitiva, mas é calma, tranqüila e produz muito. A terceira inclusão é de uma aluna que a mãe fala que ela não enxerga direito, mas tenho minhas dúvidas porque ela nunca reclamou de nada (por mais que a gente pergunte).

Vários alunos tem muita dificuldade em Língua Portuguesa: escrevem muito mal, não conseguem compreender bem o texto, dificilmente conseguem ficar sentados na cadeira.

Tudo bem, vou chegar ao ponto!

Ontem, eu entrei na sala e, pra variar, eles estavam todos de pé e alguns, brigando. Como sempre, esperei na porta até que todos estivessem sentados e mais tranquilos. No momento em que eu coloquei meu material na mesa e me voltei para a sala, já estavam todos agitados e, novamente, alguns estavam brincando de brigar. Ali, eu percebi que a aula não iria rolar: eles estavam agitados demais. Resolvi conversar com eles sobre paz e amor (sem a pieguice que virou o termo).

Falei que eu sabia que alguns conviviam em um ambiente violento: eu sabia que alguns nunca eram abraçados, nunca eram elogiados, mas sempre xingados e, muitas vezes, agredidos. Também disse como fica difícil não ser violento com tantas ofensas em casa e na escola. Perguntei se alguém gostava quando era ofendido e os questionei sobre o direito de fazer o mesmo. Disse-lhes que eu não podia ir até a casa de cada um resolver os problemas familiares, mas que eu estou sempre na escola e eles podem contar comigo todo o tempo, seja com conversas, seja com carinho, palavras de incentivo, abraços.

Então, resolvi propor um desafio: ficar 24 horas sem arrumar brigas, ser mal-educado, ofender ou falar palavras feias. Apertei a mão dos 40, como prova de que aquilo era um trato.

“Mas… e se alguém me ofender, professora?”, um me perguntou.

“Você fecha os olhos, respira fundo e pensa no amor!”, respondi, ingenuamente.

“Amor – tadela, professora?”, riu o colega.

“Sim, pode ser. Você respira fundo e diz ‘Amor tadela’, o que acham?”, resolvi entrar na brincadeira.

Naquele momento, eles ficaram muito felizes, repetindo “amortadela” (houve vários amortandela, mas não era momento para correções). Um deles até inventou um sinal para a palavra: batendo com a mão no peito duas vezes e mostrando o sinal de paz e amor com os dedos. Foi divertidíssimo. Avisei que ninguém precisa se martirizar caso não conseguisse, o importante era tentar e ver o que era possível. Disse que acreditava no potencial de cada um, todos eram capazes e etc. Quando bateu o sinal, todos vieram me dar um beijo antes de sair, muitos me abraçaram e disseram que queriam cafuné, como bebês que sentem a falta da mãe.

Eu sabia que seria difícil e sei que eles não mudam do dia para a noite.

Ao chegar na porta da sala, eles estavam todos de pé, alguns brigando e xingando, a mesma coisa. A mesma coisa? Não, alguma coisa estava diferente. Perguntei se eles haviam conseguido e muitos deles me disseram honestamente que não: era muito difícil; só tinha conseguido ontem; parece que só por causa da aposta, todo mundo tinha provocado mais. Ainda assim, eles me pareceram muito felizes. Muito mesmo. Todos estavam preocupados com a AMORtadela.

Durante a aula, um dos maiores provocadores, briguento, daqueles que passeiam e não fazem nada, estava sentado quieto em sua carteira. O bonitinho piradinho (sem preconceitos mesmo) levantou-se e me disse:

– Ô tia! O amigo tá passando mal!

– Não tô passando mal não!!!! Eu só estou quieto, assistindo aula! Não pode?

Talvez não faça sentido para a maioria. Nem mesmo para este lindinho que tem uma vida muuuuuito sofrida. Mas somente o fato de que, um dia, este AMORtadela tenha funcionado já dá sentido ao “ser professor”, não dá?