Sala de Aula


Procurando um meio de incentivar mais os alunos a produzirem textos e tentando dar mais sentido a essa escrita, combinei com eles de montar um blog em que os textos deles pudessem ser lidos.

Eles adoraram e agora estão procurando textos para levarem para lá.

Vamos ver o que vira, não é? Alguns textos já estão prontos!!!! Só faltam ser postados!!!!

Blog dos Alunos da Escola Sathya Sai

Já faz muito tempo que não escrevo, tenho estado ocupada com muitas aulas e outras obrigações rotineiras. Cansada também estou.
Entretanto, outro dia pedi para os pais de um aluno virem até a escola para conversarmos um pouco. Ele anda muito desatento, brinca bastante e não produz nada. Por mais que eu tivesse tentado conversar com ele, não houve nenhuma mudança. Enfim, os pais foram à escola meia hora depois do telefonema, conversaram muito tranquilamente comigo e se foram.
Hoje, o aluno me disse, logo que entrei, que iria fazer tudo hoje e etc. Como ele sempre diz isso e nunca cumpre, eu concordei com um “Que bom, querido”, descrente.
Ele não fez toooda a tarefa – fez boa parte. Ótimo. Enquanto eu recolhia meu material para trocar de sala, ele vira para mim e diz:
“Obrigado por não desistir de mim, professora!”
Do que mais eu preciso? Fez todo sentido a escolha desta profissão.
“De nada, meu amor. Eu é que agradeço.”

Algumas semanas atrás, resolvi aplicar uma avaliação somente relacionada à interpretação de texto para minhas turmas de 8a série. Imaginei que iriam bem. Afinal, o conteúdo era algo que nós estamos trabalhando bastante: o gênero reportagem e o ano de 1968. Elaborei a prova da seguinte maneira: dois textos – sendo uma reportagem da Folha de São Paulo sobre o movimento estudantil naquele ano, e o outro, uma música do álbum “Tropicália ou Panis et Circense”, de vários compositores/cantores. Havia algumas questões abertas e outras fechadas. Pensei em elaborar questões com alternativas não para facilitar minha correção, mas para ajudá-los a lidar com este tipo de avaliação tão comum hoje em dia.

“Ah, tá muito fácil!”, pensei… Doce ilusão… Ao contrário do que eu imaginava, a maioria dos alunos foi MUITO mal, com notas bem abaixo de 5,0. Agora, cá com mues botões virtuais, penso: “O que deu errado?”

Não dá para atribuir o péssimo resultado somente aos alunos, dizendo que eles é que são distraídos, não fazem nada direito, são mal preparados. Com certeza, meu nível de exigência foi muito alto. Será que as questões estavam absurdamente difíceis? O que eu pedi não foi trabalhado como eu achava que tinha trabalhado?

Essas questões me levam a duas outras principais: como ensinar os alunos a fazerem prova? Quem me ensinou durante a licenciatura como elaborar uma avaliação?

Ensinar os alunos a fazer prova não é tão difícil, nada como algumas aulas e muita atenção e, quase com certeza, eles vão entender melhor como resolver as questões. Há problemas seríssimos de interpretação, atenção, leitura etc. que não serão resolvidos em apenas algumas aulas. Mas como os ensinarei a responder às avaliações se eu não sei como elaborar uma? O que mais se faz no magistério é copiar exercícios de livros didáticos, avaliações e, agora, internet. Eu sou uma dessas pessoas. Pra não ficar tão feio, apesar da cópia, devo dizer que também escrevo minhas avaliações. Um exemplo disso é a avaliação que elaborei na última semana. O resultado dela é que chocante.

Por que não aprendemos a elaborar avaliações? Será que eu dormi nesta aula? Como isso é abordado na licenciatura? Na verdade, a avaliação é somente um dos problemas da licenciatura, mas também deve ser discutido. Aliás, se há tantos problemas nas questões dos resultados das avaliações, será que alguém já pensou nas dificuldades dos professores em elaborá-las, corrigi-las e trabalhá-las em sala de aulas?

Ainda não terminei este post… Há muito o que ser discutido e pensado…

Aqui coloco as avaliações para saber se estava muito difícil, quais são os erros, problemas que vocês veem…

 

Como seria minha escola ideal? Coloquei um post sobre isso, entretanto, eu mesma não escrevi.

Estou trabalhando este assunto com os alunos e estabelecemos algumas coisas: o objetivo da escola, a questão do tempo (horários), a maneira como as aulas são trabalhadas e a organização do prédio, da estrutura física. Vou tomar essas mesmas bases para meu texto. Gostaria também que todas as críticas fossem colocadas, quais problemas poderiam aparecer nesta escola, questionamentos etc.

Devo deixar claro que tudo o que está sendo escrito é somente minha opinião. Não sei dizer qual é o embasamento teórico para tudo isso… Provavelmente, há teorias que vão contra e que vão a favor do que penso. Ainda assim, este é um texto somente para sonharmos…

O objetivo da escola é a transformação do ser humano. A escola deveria ser o lugar onde as pessoas conseguem ter uma outra visão do mundo, conseguindo atuar melhor nele. Seres humanos capazes de questionar e transformar não só o seu próprio ambiente, mas capazes também de transformarem a si mesmos. O conhecimento não seria somente sobre o mundo externo, mas sobre o mundo interno também. Cidadãos conscientes de seus papéis, de sua força, de sua humanidade. A escola os ajudaria a tirar a venda que a falta de conhecimento impõe. Por isso, a escola tem que ser um lugar para se desenvolver as questões dos valores humanos – como diz Sai Baba: amor, paz, verdade, ação correta e não-violência.

Escola transformadora é escola em tempo integral. Como entender tudo, passar diversas experiências, aprender a estudar, desenvolver habilidades artísticas, esportistas, técnicas, se são somente 4 horas na escola? A escola em tempo integral não serviria somente para dar o que comer e tirar as crianças da rua, mas para dar a eles uma vivência mais completa do que ficar em casa vendo TV e jogando vídeo game. As aulas começariam às 7h30; às 9h, haveria um intervalo de meia hora; depois, ficariam até às 11h, onde haveria mais um intervalo de meia hora. As aulas da manhã se encerrariam às 12h30. Entre 12h30 e 14h, os alunos ficariam livres para almoçar, descansar, fazer o que bem entendesse. Às 14h, as aulas voltariam. Mas as aulas da tarde não seriam como as da manhã: atividades ligadas às artes, ao esporte, a projetos científicos; rodas de leitura, teatro, grupos de estudo e atividades afins.

Ainda não estou certa do modo como as aulas seriam trabalhadas: hora expositivas, hora em atividades grupais; ao invés de somente ficarmos falando, poderíamos, assim como eu vi num cursinho daqui de Ribeirão, colocar perguntas disparadoras em que os alunos buscassem as respostas. É certo que as salas seriam pequenas: 20 a 25 alunos no máximo, o que possibilita trabalharmos em roda, montar grupos pequenos, duplas menos barulhentas. Provocar os alunos de modo que eles não sossegassem enquanto não descobrissem as respostas aos seus questionamentos. Acho que o impossível é escolher somente um método e segui-lo para sempre. Projetos são tão importantes quanto as aulas expositivas, procurar as respostas podem trazer outra visão do conhecimento tanto quanto escutar alguns especialistas – como o professor. As aulas seriam um universo de possibilidades relacionadas ao conhecimento.

A escola tem que ser grande. Não sei se com muitos alunos, mas ter um espaço físico bacana: muitas árvores, muita planta, quadras poliesportivas, auditório, laboratórios, biblioteca grande e decente, refeitório, sala de vídeo, sala de computador, horta, pomar, etc. Entre tudo isso, entretanto, o principal é a sala ambiente. A sala ambiente, por mais facilitadora do “passeio” dos alunos (e os inspetores odeiam), é fundamental para um trabalho personalizado, individual, em que o professor consegue propiciar todas (ou quase todas) as ferramentas para um ensino melhor. Adoro sala ambiente, não consigo ser convencida por nenhum outro argumento…. Acho também que os professores poderiam ter uma sala melhor. A sala dos professores, além da tradicional mesa para o café, ops!, para reuniões, deveria ser grande o suficiente para que cada um tivesse sua própria mesa, um armário digno e uma estante particular de livros. Como trabalharíamos tempo integral na escola, seriam poucos professores, o que não torna o espaço impossível.

Nesta escola, os pais não seriam aqueles que entregam seus filhos na entrada e buscam na saída. Os pais seriam os parceiros, os amigos. Pessoas que acreditam neste lugar e que participam desta construção, do modo como podem, mas ajudando a fazer a escola dar certo. Ao invés de pessoas trabalhando sozinhas, seria um grupo trabalhando junto pelo mesmo objetivo. Aí, posso incluir também direção, coordenação, pais e professores.

Existem muitas ideias, mas acho que, por enquanto, estas são suficientes.

 

Nossa, olhando para esta escola ideal percebo como algumas coisas estão distantes… provavelmente, por mais que eu lute, acho que vou morrer sem vê-la… Mesmo assim, não custa nada sonhar, não é? Vai que alguém escuta e consegue realizar algo assim?

Segue abaixo o bilhete enviado por mim e a resposta dada pela mãe

Meu bilhete

“Sr. Responsável:

O aluno fez apenas uma lição durante todo o ano. Isso o prejudica muito.

Obrigada, Professora”

A resposta da mãe

Prezada Professora,

Eu lamento muito a postura de meu filho. Realmente é vergonhosa. Mas infelizmente ele não se interessa pelos estudos. Já  levei à psicóloga, psicopedagoga e nenhum problema cognitivo foi identificado. Já usei todos os argumentos possíveis (desde pancada até suborno), mas não há nada que o convença da importância dos estudos.

Há 6 anos vou às reuniões da escola ouvir a mesma coisa: Seu filho não faz nada.

A senhora deve achar um descaso eu não ter tomado nenhuma providência mesmo vendo seus cadernos em branco.

Mas o motivo é porque eu desisti de brigar com ele, desisti de gritar, de xingar.

Vou cumprir meu papel de mãe, educando-o, mostrando o caminho da ética e da responsabilidade. Irei obrigá-lo a concluir seus estudos até o 3o colegial e só.

O Fulano sabe exatamente onde os estudos pode levá-lo. Mas parece que ele não se importa.

Então proponho que façamos (nós 2) a nossa parte e deixemos que a vida mostre para ele no futuro, a oportunidade que ele perdeu.

Caso a senhora note algum desvio de comportamento, ou ele falte com o respeito com algum professor, quero ser notificada. Pois isso não permitirei.

Mas quanto aos estudos, vou lhe dar um conselho: não perca tempo com meu filho. Invista seu precioso tempo em crianças que mereçam seu esforço.

Um forte abraço,

Mãe

Sei que talvez não seja correto eu colocar o bilhete aqui, entretanto, me entristece muito algo assim – eu tinha que trazer para mostrar do que eu estava falando.

Não consigo acusar a mãe de nada, ao contrário, ela é muito corajosa em assumir até onde pode ir. Mas, se pararmos pra pensar, novamente, não é responsabilidade só da mãe. A sociedade que estamos construindo é essa: não há valorização do conhecimento, só há busca de dinheiro e fama, só há a preocupação com o fútil. Como queremos que nossos filhos sejam diferente disso?

Uma escola mais motivadora, na maioria das cidades, é particular. Quantas escolas públicas conseguem desenvolver o gosto pelo saber? Mesmo a maioria das particulares também não conseguem atingir esse nível. Que culpa essa mãe tem de não poder mudar a criança para uma escola em que, talvez, seu filha se sinta mais motivado?

Sim, eu sei. Tem muita coisa envolvida. Não sei como são as coisas neste lar e não conheço a mãe pessoalmente. Mas dá para perceber muitas coisas em seu bilhete: é estudada (pois escreve bem), tem consciência, preocupa-se com o caráter, o filho é um doce. Ela só deve estar tão perdida quanto nós estamos…

Amanhã mandarei um bilhete pedindo para que ela vá à escola. Tomara que dê certo, pois, com certeza, o filho dela merece tanto quanto as outras crianças.

Este bimestre estamos estudando em Língua Inglesa os nomes de alguns alimentos. Na primeira aula do assunto, apresentei o tema, perguntei sobre a comida preferida de cada um, o que era saudável e o que não era. Depois, fomos para o livro, onde havia um diálogo com a família indo ao supermercado.

A aula seguinte foi diferente. Achei que, ao trabalhar de modo mais “concreto”, talvez o conteúdo fosse melhor compreendido. A ideia inicial era que os alunos preparassem uma receita e, em seguida, fizéssemos um piquenique. Pedi para que cada um trouxesse um alimento para a aula seguinte, de pereferência, alimentos saudáveis.

Ontem foi o grande dia. Levei várias frutas para uma salada de frutas; qiejo, cenoura e alface para um sanduiche; bolo; biscoitos e suco. Os aluno trouxeram frutas, pipoca, vitamina (feita por eles mesmos), bolachas.

A ideia da receita foi por água abaixo quando me dei conta de que eles não podem manusear facas. Ainda assim, eles foram extremamente cooperativos, ajudando em tudo o que era possível.

As garotas que trouxeram a vitamina não só a prepararam como também foram procurar os nomes dos ingredientes em inglês! Isso não é lindo? O momento do intervalo, geralmente inegociável, foi adiado para depois do piquenique.

Estendemos duas enormes toalhas na grama, colocamos todas as comidas. Não só os alunos sentaram-se e entraram na brincadeira, mas também a diretora, o coordenador, a professora de História e a secretária. Todo mundo integrado e feliz.

Mostrei a eles como se dizia o nome de cada alimento e estabelecemos a brincadeira de que só de comeria aquilo que falássemos em inglês. Todos, inclusive os adlutos, fizeram seus “pedidos” em Inglês! Isto não é gratificante?

Ao voltarmos para a sala, ainda faltavam vinte minutos para a saída. Como é uma turma muito agitada, imaginei que seria difícil contê-los. Eles me supreenderam: acalmaram-se e, ainda, queriam começar ali mesmo a lição pedida para casa – elaborar um cardápio todo em inglês. Ao invés de distraídos e desmotivados, estavam envolvidos e discutiam entre si como o fariam, procurando palavras e modos de fazer um trabalho bonito.

As fotos serão postadas posteriormente porque estão na escola, mas, ainda assim, não é um momento muito legal?

Como seria a escola ideal?

Como o conhecimento seria transmitido?

Que tipos de conhecimento seriam passados?

Como o tempo (as horas) seria estruturado?

A estrutura física seria a mesma da escola atual?

Como você acha que teria gostado mais da escola na infância?

Como os alunos sentiriam-se mais motivados a buscar o conhecimento?

Gostaria que todos escrevessem comentários sobre a escola ideal, quem sabe, assim, lentamente, não poderemos, juntos, construir uma escola melhor e mais íntegra em seu propósito?

Sonhem, imaginem e, por favor, escrevam!

Na semana passada, escrevi para todos pais cujos filhos não estavam participando da aula. Os “bilhetes” não eram broncas. Neles, eu apenas dizia que os filhos precisavam participar mais das aulas, fazer as tarefas de casa, etc.

Hoje, os cadernos vieram assinados. A maioria só tinha assinatura dos responsáveis, mas um em particular me chamou a atenção.

O garoto é uma graça. Um menininho fofo e inteligente que não consegue ficar na carteira. Ele é esperto, sabe ler e escrever. Não é o caso daqueles gênios que se desinteressam porque o conteúdo é fácil. Ele simplesmente se desinteressa e resolve jogar papéis nos outros, falar besteiras quando estamos respondendo oralmente e não fazer nada quando estamos trabalhando com livro ou caderno. O fofo nunca me desrespeitou nem me ofendeu, mas não dá conta das aulas. Os outros professores também reclamam.

Quando entrei na sala, ele me trouxe o caderno e lá estava uma folha inteira escrita pela mãe. Na primeira página, ela dizia que já o tinha levado a médicos, psicólogos, pedagogos e não descobriram nenhum problema cognitivo. Também dizia que desde pequeno todas as professoras reclamavam dele. No fim da página, ela diz que precisa da minha ajuda, porque não sabe o que fazer. Ao virar a folha e ler a segunda página, me surpreendi. Ela pedia para que eu deixasse de me preocupar com ele e me dedicasse ao resto da turma, porque até ela já tinha desistido. A mãe afirmava que não admitiria problemas dele com falta de respeito, mas quanto ao interesse não havia mais nada o que fazer.

Chocada, perguntei se ele havia lido o bilhete e ele me diz que sim. O rosto dele estava péssimo. Imagina… até sua mãe desistiu de você, quem não estaria?

Durante a aula, ele foi o mesmo. Mesmo chateado, ele ainda não tem a capacidade de enfrentar a situação e dizer “vou mostrar a todos que sou capaz, provar que estão errados a meu respeito”. O que fazer? Eu disse a ele que não desitiria dele e fiz vários elogios plausíveis a seu respeito, pontuando as dificuldades, mas não enfatizando-as.

Não quero julgar a mãe. Não sei como é a vida dela, não sei que tipo de pessoa é, não a conheço. Só tenho certeza de que, ao chegar neste ponto, alguma coisa está muito errada e as soluções precisariam aparecer. Entretanto, como buscar um caminho que ajude esta criança e como dizer a esta mãe que ela não poderia desistir?

Se aumentarmos o foco, percebemos que talvez ela não seja a única que tenha desistido do próprio filho. O professor lida com várias crianças que a mãe desistiu. Como, então, manter a motivação e a crença? Acho que falta este elo entre pais e escola, o qual poderia fazer diferença antes que todos desistissem e a sala se tornasse o reflexo do abandono geral.

Sofia Amorim


Texto escrito em Novembro de 2006, sobre uma experiência em sala de aula e o site de publicações Overmundo.

Muito se discute sobre educação. Diversos teóricos a estudam, pesquisam a respeito de sua importância, do seu papel na sociedade, em como trabalhar as diversas disciplinas, etc. etc. etc. Entretanto, entre a prática de sala de aula e as teorias parece haver um enorme abismo. Não que as teorias não estejam “certas”, mas o cotidiano, a rotina tendem a massacrar a maior parte do que se estuda.

Trabalho em uma escola municipal de periferia de Ribeirão Preto. O bairro não é tão pobre, apesar de enfrentar algumas dificuldades. A escola é muito boa, tem um corpo docente incrível e a direção consegue deixar todos incentivados a fazer um bom trabalho. Lógico que isso é exceção – nem todas as escolas públicas podem contar com um ambiente legal de trabalho. Sou professora de Língua Portuguesa em uma 5ª, três 7ª e uma 8ª séries do Fundamental.

Uma dessas salas, a 7ª C, é daquelas que os professores realmente pensam se querem continuar no magistério. Alguns alunos são muito dedicados, amam estudar e questionar tudo. Outros, em compensação, não querem (aparentemente) saber de nada – seus objetivos parecem ser irritar o quanto possível todos os professores. Várias vezes a direção foi chamada para conversar com eles, pois os professores não sabiam mais o que fazer. Até aí, tudo bem… nada de muito diferente do que acontece na maior parte das escolas atuais.

Algumas semanas atrás, resolvi fazer um trabalho diferente com eles – um trabalho de produção textual. A atividade consistia em três partes: na primeira, eles escutaram trechos de diversas músicas, das mais comuns às mais bizarras, e fizeram um desenho de seus sentimentos para cada uma delas; na segunda, os alunos pensaram em tudo o que sentiram ao escutar aquelas músicas, refletiram sobre seus desenhos e, então, começaram a escrever tudo o que viesse à mente – sem pontuação, sem orações completas, sem nada – apenas escrever o pensamento; na última parte, eles circularam várias palavras do texto e, com elas, montaram um poema – cada um do seu jeito, com seu estilo, conforme suas vontades e sentimentos.

Como já tinha trabalhado esta atividade em outras salas, imaginei que alguns, como de costume, iriam passear pela sala, não fazer a atividade e coisas do tipo. Mas, não. O “milagre” aconteceu. Todos eles se sentaram e se concentraram na atividade. Não havia conversa na sala. Os quietos, quietos, os bagunceiros, quietos também. Havia um silêncio envolvente, um clima contagiante de seriedade no que faziam. Eu desacreditava… Tirei fotos, porque sabia que os colegas talvez não acreditassem. Quando terminaram a segunda parte, expliquei o passo seguinte e o milagre foi se multiplicando: gente que nunca tinha copiado uma linha sequer em todos esses meses me trazendo poemas e poemas. A sala se encheu de poesia. E de poesia também os alunos se preencheram, quem terminava ajudava os que tinham dificuldade, os que faziam bagunça pediam ajuda para os quietos.

Quando li as poesias, chorei (talvez pareça exagero). Chorei porque eu já tinha perdido aquela empolgação de quando começamos a lecionar. Chorei porque vi que, sim, era possível acontecer o “milagre”. Chorei porque, sim, todos são capazes e podem ir além…

Minha relação com esta sala mudou completamente. Não, eles não deixaram de ser quem eram. Mas meu olhar mudou. A minha empolgação mudou. E o “milagre”, que eu acreditava ter acontecido neles, aconteceu em mim. As aulas agora fluem com muito mais energia, com muito mais vontade. Talvez, por eu ter mais vontade, eles me escutam mais, participam mais e os milagres continuam a acontecer…

Hoje, eles apresentaram trabalhos sobre países do oriente. Dentre as três 7ª séries, a deles foi a mais criativa, foi a que apresentou os melhores trabalhos. A grande maioria se dedicou muito para que apresentassem o melhor de si. Isso não é maravilhoso?

Alguns desses alunos participam do Overmundo e vivem publicando seus textos por aqui. O Carlos publicou o texto q fez em sala de aula – chama-se Sonho Inesquecível. O José Bruno está para publicar o dele. Pedi a eles que fizessem um texto coletivo sobre a experiência de hoje para publicarem aqui também.

Não sei dizer exatamente o que tudo isso significa. Sei falar que nossa postura determina muito da postura do outro. Sei também dizer que todos nós somos educadores, inclusive o Overmundo e seus colaboradores, pois os alunos têm se sentido muito incentivados a escrever mais e melhor com a participação por aqui. Obrigada a todos por participarem da minha sala de aula e por fazerem com que as colaborações de vocês colaborem também em minhas aulas.

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